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Nova Identificação de Fóssil de Pterossauro por Pesquisadores Brasileiros Levanta Dúvidas: Poderia Ser um Peixe?

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Nova Identificação de Fóssil de Pterossauro por Pesquisadores Brasileiros Levanta Dúvidas: Poderia Ser um Peixe?

21 de abril de 2026

Autores:

David Unwin, Reader in Palaeobiology, School of Heritage and Culture, University of Leicester


Georges Cuvier, renomado anatomista francês do século XIX, foi pioneiro na identificação dos pterodáctilos como répteis voadores, afirmando que “entre todos os seres cuja existência antiga nos foi revelada, [eles são] os mais extraordinários”. Hoje, esses seres fascinantes são conhecidos como pterossauros e viveram lado a lado com os dinossauros por mais de 150 milhões de anos, adaptando-se a diversos habitats, desde rios e lagos até oceanos abertos. Com algumas espécies pequenas, do tamanho de um pombo, outras alcançaram impressionantes envergaduras superiores a dez metros.

O pterossauro do Jurássico Superior Rhamphorhynchus

O pterossauro do Jurássico Superior Rhamphorhynchus (Museu Bürgermeister-Müller, Eichstatt, Alemanha).
David Unwin, CC BY

Os pterossauros, dotados de características únicas, não se assemelham a qualquer outro animal, seja vivo ou extinto. No entanto, uma longa lista de fósseis foi equivocadamente classificada como pterossauros, incluindo o Archaeopteryx, uma das aves mais antigas conhecidas, e o Tanystropheus, um réptil aquático com vértebras cervicais longas, que lembram algumas das características dos pterossauros.

Um dos episódios de identificação errônea mais conhecidos ocorreu em 1939, quando o paleontólogo Ferdinand Broili descreveu o novo pterossauro Belonochasma, utilizando o que pensava serem restos de mandíbulas com dentes longos e finos. Décadas depois, cientistas liderados por Franz Mayr, do Museu Jura em Eichstätt, desmascararam essa confusão: os “dentes” não eram mais do que filamentos branquiais de um peixe.

No contexto da década de 1930, a disseminação de publicações científicas era um processo que frequentemente levava anos. Esse ritmo reduzido insulava as identidades equivocadas e seu impacto era mínimo.

Contrapõe-se a isso a dinâmica atual, onde a maioria dos paleontólogos está imediatamente ciente de novas pesquisas, muitas vezes em questão de dias, ou até horas, após sua publicação, podendo acessar conjuntos de dados com facilidade. Essa velocidade traz benefícios, mas também apresenta o risco de que erros se espalhem com a mesma rapidez.

Uma descoberta controversa

Em novembro de 2025, uma equipe de paleontólogos brasileiros, liderada por Rodrigo Pêgas, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), anunciou a descoberta do que acreditavam ser um novo pterossauro, o Bakiribu waridza. Este fóssil foi encontrado em rochas de 110 milhões de anos, datando do Cretáceo Inferior, na região de Araripe, no Nordeste do Brasil.

A análise inicial indicava que o fóssil consistia não apenas de pequenos peixes, mas também de restos supostamente de dois pterossauros, representados por fragmentos de mandíbulas e centenas de dentes. Pêgas e sua equipe sugeriram que esses restos poderiam pertencer a um enorme predador dinossáurico, cuja regurgitação tinha possibilitado a preservação desses fósseis, atraindo atenção considerável na forma de representações artísticas e uma entrada na Wikipedia.

No entanto, especialistas em pterossauros – incluindo eu, junto com David Martill e Roy Smith, da Universidade de Portsmouth, e Sam Cooper, do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart – começaram a notar incoerências.

Bakiribu (em cima) comparado com o peixe do Jurássico Superior Belonochasma.

O Bakiribu (em cima) comparado com o peixe do Jurássico Superior Belonochasma (barra de escala: 10 mm).
David Unwin, CC BY

Comparando fotos digitais de alta resolução de fósseis de pterossauros com as do Bakiribu, notamos que os seus supostos “dentes” não apresentavam a simetria característica dos pterossauros dentados e careciam das raízes típicas. Detalhes como a dentina e os túbulos dentinários, presentes em dentes de pterossauros, também estavam ausentes. As peças ósseas associadas às alegadas mandíbulas não se assemelhavam a nenhum elemento craniano de pterossauros, possuindo uma textura diferente.

Diante disso, Martill recordou-se do caso do Belonochasma, levando-me a investigar o fóssil original em Munique no início deste ano. A semelhança entre Belonochasma e Bakiribu era evidente.

Ao comparar Bakiribu com fósseis de peixes-arco antigos encontrados nas mesmas formações, juntamente com a expertise de Cooper sobre peixes fossilizados, estabelecemos que os supostos dentes são, na verdade, filamentos de guelras, e os ossos associados são branquiais. Assim, o Bakiribu é reconhecido como um arco branquial colapsado de um peixe de grande porte, preservado ao lado de pequenos peixes.

O peixe-arco Amia calva.

O peixe-arco Amia calva.
Zachary Randall, CC BY

Um artigo detalhando nossas descobertas foi publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências. A equipe de Pêgas contestou nossas conclusões e foi convidada a apresentar uma resposta na mesma edição da revista, mas não aceitou o convite.

A importância da correção de erros de identificação

Todos os paleontólogos, incluindo eu, já cometemos erros na identificação de fósseis em algum momento. A natureza fragmentária de muitos restos fósseis torna tais equívocos inevitáveis. Contudo, na atual era de comunicação instantânea, a identificação e correção de erros precisam ser feitas rapidamente. O ambiente digital pode auxiliar nesse processo.

Cinco semanas após a menção do Bakiribu, nossa equipe publicou uma reinterpretação do fóssil como um artigo pré-impressão. Apenas cinco meses depois, nosso relato, revisado por pares, foi publicado.

A velocidade das informações digitais propiciou que esse caso fosse rapidamente revisto. Entretanto, muitos outros fósseis mal identificados podem permanecer desconhecidos, e erros continuarão a surgir no futuro. Uma vez reconhecidos, temos agora ferramentas que permitem a verificação ágil desses enganos, minimizando seu impacto no vasto conhecimento paleontológico.



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