Ir para o conteúdo

Maria Rita Kehl e sua Análise Perspicaz sobre os Movimentos Identitários – Jornal da USP

Maria Rita Kehl e sua Análise Perspicaz sobre os Movimentos Identitários – Jornal da USP

26 de fevereiro de 2025

Autores:

Redação


O polêmico debate sobre identitarismo: Reflexões à luz da crítica de Maria Rita Kehl

Recentemente, uma entrevista da psicanalista e escritora Maria Rita Kehl no programa Dando a Real acendeu um intenso debate na esfera pública, especialmente devido a suas críticas aos chamados “movimentos identitários”. Embora suas opiniões tenham sido veementemente contestadas, o que chamou a atenção foi a natureza da resposta que recebeu: muitos dos rebatimentos se transformaram em ataques pessoais, incluindo referências à sua família, o que evidencia uma grave distorção do que deveria ser um debate construtivo. Em tempos em que a polarização nas discussões políticas se intensifica, é crucial que rejeitemos tanto a instrumentalização negativa do identitarismo quanto as críticas ad hominem que eclipsam a essência do diálogo.

O conceito de identitarismo surge de um contexto onde a identidade é utilizada como um vetor de mobilização política. O manifesto Combahee River Collective Statement, de 1977, um marco nas discussões sobre identidade e luta social, reivindica precisamente essa perspectiva, destacando a luta das mulheres negras que se viam ausentes tanto do feminismo mainstream quanto do movimento negro predominante. A afirmação da identidade e da experiência vivida é uma construção fundamental em sua militância. Mais tarde, textos como Mapping the Margins, de Kimberlé Crenshaw, introduziram o conceito de interseccionalidade, alertando para os riscos de abordagens que podem ignorar as diversidades internas dentro de grupos identitários e suas complexidades.

Na década de 1980, surgem os termos "política identitária" e, a seguir, "identitarismo", frequentemente utilizados de forma crítica, tanto por vozes da esquerda quanto por setores conservadores. Autores de diversas vertentes argumentam que a concentração excessiva na identidade fragiliza os movimentos sociais, desviando-os das batalhas estruturais, principalmente em termos de desigualdade de classe. Dentro de uma leitura marxista, por exemplo, a crítica se dá em torno da substituição da organização coletiva por uma busca por representatividade que não aborda, de fato, as raízes materiais da opressão.

Conforme o debate avança, “identitarismo” se torna um termo carregado de ambivalências: enquanto alguns o veem como uma defesa da luta por reconhecimento, outros o interpretam como um desvio de uma política mais universalista focada na construção de um projeto social comum. Nesse sentido, a terminologia acaba obscurecendo a verdadeira natureza e finalidade de movimentos sociais que lidam com questões de raça, gênero e sexualidade.

Kehl levanta uma preocupação pertinente sobre o risco de fechamento desses movimentos em "nichos narcísicos", priorizando a validação interna em detrimento do diálogo com a sociedade em geral. Esse fenômeno não é exclusivo dos chamados movimentos identitários, manifestando-se de diversas formas em múltiplos setores da política. Infelizmente, essa tática de desqualificação, como o uso de ataques ad hominem, é uma estratégia recorrente em nossas discussões – tanto da direita quanto da esquerda, que frequentemente rotulam adversários antes de engajar criticamente.

A academia, por sua vez, também pode se transformar em um espaço de exclusão quando debates são filtrados por critérios de pertencimento, eclipsando a análise crítica dos argumentos. Apontar essa problemática é relevante, mas atribuí-la exclusivamente aos movimentos identitários para reforçar a ideia de isolamento apenas perpetua essa divisão, dificultando o estabelecimento de diálogos frutíferos.

Outro aspecto alarmante é a versão distorcida do conceito de "lugar de fala", que, embora tenha como fundamento o reconhecimento das experiências diversas, muitas vezes serve para silenciar vozes que não compartilham de determinadas vivências. Isso gera um ambiente de debate hostil e, contrariamente ao que se deseja, resulta em uma fragmentação do discursos.

Recentemente, uma crítica feita pelo site Mundo Negro a Kehl ilustra claramente esse desvio. Ao invés de responder aos argumentos apresentados, a crítica se concentrou em atacar a identidade e a história familiar da psicanalista, desviar o foco de um debate que deveria ser centrado nas ideias. Essa abordagem ignora os argumentos e recorre à desqualificação infundada, o que não contribui para o avanço do debate.

O uso do termo “movimento identitário” como um locus de fechamento cognitivo reforça a própria fragmentação que pretende criticar. Reconhecer que o fechamento de grupos em nichos isolados é um problema real que precisa ser abordado é essencial, mas reduzi-lo a uma consequência exclusiva do identitarismo limita as possibilidades de diálogo e compreensão.

Em vez de polarizar ainda mais a discussão, é de suma importância que nos concentremos no mérito das ideias e não em ataques pessoais ou à identidade de quem as formula. Somente assim poderemos construir um espaço democrático de debate, onde existam pontes de entendimento e um verdadeiro espaço para a troca de ideias.


(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



Link da Fonte

Compartilhe:

Compartilhe emfacebook
Compartilhe emtwitter
Compartilhe emlinkedin

Mais lidas