Avatares de Inteligência Artificial: Novos Agentes de Desinformação nas Eleições
A política, tradicionalmente fundamentada na razão e na ética, enfrenta um novo desafio no contexto digital: a ascensão dos influenciadores virtuais criados por inteligência artificial (IA). Esses avatares, como a "Dona Maria" do TikTok, emergem como instrumentos de engajamento e desinformação, revelando um cenário que oscila entre a emoção e a manipulação.
Segundo Mário Aquino Alves, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da FGV EAESP, as redes sociais priorizam o engajamento em detrimento da veracidade. "Os algoritmos visam captar a atenção, utilizando estratégias de marketing que se baseiam em apelos emocionais, não racionais", explica.
Dona Maria, um avatar de IA com 726 mil seguidores no Instagram, ganhou notoriedade ao criticar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e respaldar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Com um linguajar agressivo e carregado de xingamentos, o personagem simula uma mulher negra de meia-idade e dialoga com uma parcela significativa da população que, de acordo com Alves, tem influenciado as recentes eleições.
Os vídeos de Dona Maria, que frequentemente abordam questões econômicas urgentes, como a alta dos preços de alimentos, têm alcançado milhões de visualizações. Contudo, a linha entre protesto legítimo e desinformação se torna tênue, especialmente quando avatares endossam afirmações enganosas.
A ausência de legislação específica sobre o uso de IA nas eleições acentua a preocupação. Embora a Justiça Eleitoral proíba desinformação, não existem diretrizes claras sobre como regular o impacto desses novos influenciadores. O Projeto de Lei 2.688/2025, em trâmite no Congresso, propõe penalidades severas para o uso de IA para manipulação eleitoral, mas o desafio persiste.
Alves ressalta que a popularidade de avatares como Dona Maria não se limita ao âmbito político. "A influência de personagens virtuais está crescendo em várias esferas da vida digital, tornando-se uma nova realidade social", conclui. Assim, a interseção entre a tecnologia e a política promete redefinir o futuro das campanhas eleitorais, levantando questões cruciais sobre liberdade de expressão e regulação.
