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Em Que Lado Você Está? – Uma Reflexão do Jornal da USP

Em Que Lado Você Está? – Uma Reflexão do Jornal da USP

11 de abril de 2025

Autores:

Redação


Por Eva Alterman Blay, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Por que a presença feminina em cargos políticos ainda é tão escassa? Por que as poucas mulheres que se atrevem a entrar nessa arena frequentemente enfrentam violência, agressões morais e ameaças à sua vida? O que, ou quem, impede que elas exerçam a plena cidadania garantida pela Constituição de 1988?

Essas questões foram o foco da 1ª Audiência Pública "Mulheres e Cidadania", promovida pela Escola Judiciária Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia. O evento, que buscou diagnosticar a violência política de gênero e propor medidas para aumentar a participação das mulheres na política, teve a coragem de ser realizado sob a liderança de autoridades como os desembargadores Abelardo Paulo da Matta Neto e Moacyr Pitta Lima Filho, além de uma equipe diversificada de profissionais. Pela primeira vez, em anos de envolvimento com temas públicos, testemunhei o comprometimento dos proponentes, que se mantiveram até o fim do encontro, onde foi lida a "Carta de Salvador", detalhando problemas e soluções identificados durante a audiância.

Refletir sobre a presença e a ausência de mulheres na configuração sociopolítica brasileira recente é essencial. Desde o início do século 21, o Brasil tem enfrentado uma série de crises políticas, golpes, fake news e governos que, ora flertam com o liberalismo, ora com o fascismo. Esse panorama é uma consequência de um passado conturbado, marcado por guerras mundiais e a fragmentação da ideologia comunista. As guerras, como sabemos, forçaram muitas mulheres a assumir funções econômicas antes restritas aos homens, que foram designados para o front. No entanto, esse retorno ao lar após os conflitos não se deu sem resistência.

As transformações impostas pelos conflitos aportaram mudanças significativas nos papéis de gênero. Embora tenha havido um aumento na participação feminina na força de trabalho e no acesso à educação, a desorganização urbana e a escassez de oportunidades profissionais para ambas as partes se tornaram evidentes. As novas tecnologias, que poderiam ter representado uma nova era de inclusão, acabaram concentradas nas mãos de poucos, enquanto as barreiras sociais se enfraqueciam, mas não desapareciam.

Os movimentos feministas, que emergiram enfrentando a ditadura militar entre 1964 e 1985, tornaram-se vozes vitais na luta contra a violência de gênero. A redemocratização possibilitou a implementação de políticas públicas significativas, como delegacias especializadas e programas educacionais voltados para a promoção dos direitos das mulheres. Contudo, bastou um governo obscurantista, marcado por posturas retrógradas e autoritárias, para desmantelar essas conquistas.

A persistência da herança patriarcal é alarmante, mesmo com o fato de que mais de 50% das famílias brasileiras são sustentadas por mulheres. O poder continua sendo exercido por homens que mantêm uma visão conservadora e armada, perpetuando a violência contra as mulheres, como podemos ver pela crescente taxa de feminicídios.

No estado de São Paulo, considerado o mais avançado economicamente do país, observamos uma política educacional autoritária que prioriza a militarização das escolas e a supressão de conteúdos que fomentam o pensamento crítico. Nessa lógica, as novas gerações são privadas de conhecimento sobre sexualidade e acabam absorvendo uma versão deturpada de patriarcado, que transforma as mulheres em propriedades de seus homens — sujeitos a violência extrema.

Embora tenha havido um leve aumento no número de deputadas, muitas se alinham a uma ideologia conservadora, sendo apelidadas como "Mães da Pátria", enquanto outras, que realmente defendem propostas progressistas, enfrentam uma violenta oposição.

O universo feminista é, por sua natureza, revolucionário e busca a igualdade de gênero em todas as suas formas. No entanto, a ascensão do antifeminismo, uma ideologia autoritária que visa a submissão de mulheres e minorias a um líder opressor, representa um retrocesso inaceitável.

Este é um momento decisivo na história. É hora de nos questionar: de que lado estamos?

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem posições institucionais da Universidade de São Paulo.)



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