Desigualdade Energética: Brasil e Canadá em Perspectiva
Em 2019, o consumo de energia residencial per capita no Canadá foi cerca de sete vezes superior ao do Brasil. Apesar de quase 100% das residências brasileiras estarem eletrificadas, o país enfrenta um paradoxo de pobreza energética. A explicação para essa contradição é abordada pelo professor Fernando de Lima Caneppele, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga (SP).
Conforme relatado pela Empresa de Pesquisa Energética, 99,8% dos lares no Brasil estavam conectados à rede elétrica em 2019. Entretanto, acesso à energia não se traduz automaticamente em conforto ou qualidade de vida. O que chega à casa não necessariamente transforma o cotidiano, perpetuando carências invisíveis.
Analisando os dados do Observatório Brasileiro de Erradicação da Pobreza Energética (Obepe), Caneppele destaca que o fogão a lenha ainda é predominante entre as famílias de baixa renda, enquanto os cooktops por indução se consolidam entre os mais abastados. Mais da metade do consumo residencial ainda depende de lenha e GLP, com a cocção representando quase 50% da energia utilizada nas residências. Esse uso tradicional compromete a qualidade do ar e a saúde de mulheres e crianças, especialmente nas camadas mais vulneráveis.
A desigualdade não se limita ao tipo de energia consumida. Em 2019, os 10% mais pobres do Brasil consumiram em média 371 kWh por ano, equiparando-se ao nível do Marrocos, enquanto os mais ricos ultrapassaram 2.200 kWh, numa comparação com o Japão. Para o especialista, a maioria das famílias brasileiras ainda consome bem menos energia do que seu potencial real permitiria. O desejo de usufruir do conforto proporcionado por aparelhos eletrodomésticos permanece um sonho distante para muitos.
A Série Energia, apresentada por Fernando de Lima Caneppele, é um esforço colaborativo que conta com a produção de Murilo Miceno Frigo, doutorando e professor do Instituto Federal do Mato Grosso do Sul (IFMS), além de ser coproduzida por Ferraz Junior e editada pela Rádio USP Ribeirão. Os ouvintes podem sintonizar a programação pela FM 107,9 ou acessar pelo site oficial e aplicativo disponível para Android e iOS.
