O fenômeno climático conhecido como El Niño tem sido objeto de estudos intensivos, especialmente devido às suas implicações no clima e no meio ambiente. Neste ano, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aponta que há uma chance de 60% de que o El Niño se desenvolva durante o trimestre de maio a julho, com probabilidades que podem ultrapassar 90% na próxima primavera, em setembro.
Em suma, a expectativa é de que o fenômeno se concretize na segunda metade do ano. Jornais têm veiculado a previsão de um El Niño de forte intensidade entre 2026 e 2027. Contudo, surge a questão: é possível prever a intensidade desse fenômeno com tanta antecedência?
A verdade é que a previsão da intensidade do El Niño para a primavera de 2026 está cercada de especulações e, por vezes, de informações sensacionalistas.
Modelos acoplados de última geração possibilitam prever a evolução do El Niño meses antes, analisando anomalias na temperatura do ar e permitindo intervenções preventivas em áreas críticas.
No entanto, modelos complexos, que simulam a interação entre oceanos e atmosfera, oferecem previsões de impactos de 1 a 3 meses de antecedência. Prognósticos com prazos maiores carregam uma incerteza maior, aumentando a margem para erros.
As origens do El Niño
No século XIX, pescadores do Peru e do Equador notaramm que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial ocorria frequentemente perto do Natal, o que impactava a pesca. Este fenômeno foi interpretado como um “sinal” para interromper o trabalho e celebrar o nascimento do “El Niño” Jesus, resultando na nomenclatura do evento.
Na década de 1920, o cientista Gilbert Thomas Walker identificou a relação do fenômeno com variações na pressão atmosférica entre regiões do Oceano Pacífico e alterações nos ventos equatoriais, que, por sua vez, afetavam as correntes oceânicas e a temperatura do mar. O fenômeno ganhou destaque na década de 1980, principalmente após o forte El Niño de 1982-83.
Definição do El Niño
O El Niño é um fenômeno climático e oceânico que ocorre no Oceano Pacífico tropical, caracterizado por águas mais quentes do que o normal na região equatorial centro-leste. Ele integra um ciclo natural denominado El Niño – Oscilação Sul (ENOS), que impacta o clima global.
No contexto do ENOS, o fenômeno oposto é a La Niña, que se refere ao resfriamento das águas superficiais. Tanto o El Niño quanto a La Niña geram mudanças nas precipitações e temperaturas na América do Sul, afetando diferentes regiões de maneira distinta.
As consequências do El Niño incluem, entre outras, o aumento das chuvas no sul do Brasil e na costa do Peru e Equador; secas na Amazônia e no Nordeste; mais ondas de calor no centro do Brasil; diminuição da frequência de furacões no Atlântico Norte; e elevação das temperaturas globais.
Em anos de El Niño, grandes secas na Amazônia foram registradas em períodos como 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24. Vale ressaltar que secas também foram observadas em anos sem El Niño, como em 1963 e 2005 na Amazônia, e em 2012 no Nordeste, as quais estavam ligadas à variabilidade da temperatura da superfície do mar no Atlântico tropical Norte.
A pesquisa realizada na década de 1990 precisa ser revisitada à luz do El Niño e das atuais mudanças climáticas. O monitoramento contínuo é vital para entender o presente e prever o futuro.
El Niño e desastres climáticos
Embora o El Niño não cause desastres climáticos diretamente, ele pode aumentar ou reduzir a probabilidade de eventos extremos no Brasil, o que é crucial para a elaboração de previsões de risco.
Chuvas intensas e ondas de calor podem ocorrer independentemente do El Niño, mas a presença desse fenômeno pode amplificar suas consequências. Em 2023 e 2024, eventos extremos de calor e secas resultaram em um aumento significativo na quantidade de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal, além da morte de mais de 200 botos-cor-de-rosa devido ao estresse térmico.
No Sul do Brasil, inundações severas impactaram o Rio Grande do Sul durante a primavera de 2023 e o outono de 2024.
Vale destacar que a probabilidade de desastres não depende apenas da ocorrência de fenômenos climáticos extremos, mas também da exposição e vulnerabilidade da população, além da capacidade de proteção e das ações de mitigação.
Previsões para 2026-2027
As previsões atuais indicam a possibilidade de um novo El Niño entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. No entanto, a confiabilidade sobre sua intensidade ainda é questionável.
Fontes oficiais e especializadas apontam que há 25% de chance de um El Niño de intensidade forte e outros 25% para um fenômeno muito forte, que é caracterizado por uma temperatura na região central do Oceano Pacífico que excede em mais de 2°C os valores normais.
O Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI) alerta que as previsões feitas nesta época do ano têm um alto grau de incerteza quanto à intensidade do fenômeno. Portanto, será necessário esperar até o próximo inverno para obter previsões mais concretas sobre a intensidade e os impactos do El Niño que se configura.
Por fim, a previsão climática sazonal para o período de maio a julho não mostra uma influência clara do El Niño nas precipitações brasileiras. Outro ponto importante é que a intensidade do fenômeno não determina necessariamente a gravidade de seus impactos. Durante episódios mais intensos, a influência do El Niño se torna mais evidente, manifestando-se em um aumento da precipitação no sul e diminuição no norte do país.
Recentes reportagens sobre secas severas na Amazônia e no Nordeste, assim como chuvas potencialmente catastróficas no Sul, carecem de embasamento científico confiável, muitas vezes resultando de meras especulações.
