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Da Antártida a Minas Gerais: a relevância do hantavírus e seu impacto no Brasil

Da Antártida a Minas Gerais: a relevância do hantavírus e seu impacto no Brasil

13 de maio de 2026

Autores:

Klinger Soares Faíco Filho, Professor da Disciplina de Clínica Médica e Medicina Laboratorial, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)


No início desta semana, em 11 de maio, as autoridades de saúde de Minas Gerais confirmaram que um óbito ocorrido em fevereiro deste ano, previamente sem causa esclarecida, foi causado por hantavirose. O diagnóstico, surpreendentemente, chegou três meses após a morte do paciente.

Esse caso ressalta os desafios enfrentados no diagnóstico de uma doença que, embora circulando pelo Brasil há mais de três décadas, raramente figura nas notícias. O reconhecimento da hantavirose depende de laboratórios especializados, vinculados à vigilância epidemiológica ou centros de referência, e seu quadro inicial é frequentemente confundido com doenças como a gripe ou a dengue. Por isso, muitos casos apenas são diagnosticados após a desfecho trágico, como o deste mineiro.

Outro ponto alarmante é que a taxa de letalidade de cerca de 46,5% divulgada pelo Ministério da Saúde é baseada apenas nos casos confirmados. Especialistas sugerem que os números reais sejam significativamente maiores.




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A confirmação do caso mineiro coincidiu com uma nova onda de atenção global sobre a hantavirose. Recentemente, o navio holandês MV Hondius ganhou destaque internacional: oito passageiros adoeceram, e três faleceram pelo mesmo vírus, durante uma expedição com 147 pessoas partindo de Ushuaia, na Argentina, rumo à Antártida. Este surto representou o primeiro registro do tipo em um navio, levando portos na Europa a se recusarem a receber a embarcação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o risco para a população geral como baixo.

O que é o hantavírus

Hantavírus refere-se a uma família de vírus associados a roedores silvestres. Enquanto os ratos do mato não apresentam sintomas, eliminam o vírus perpetuamente em sua urina, fezes e saliva. Quando essas excreções secam em ambientes fechados, o vírus pode ser inalado em partículas suspensas no ar, muitas vezes sem que a pessoa perceba. Diferentemente de muitas doenças infecciosas, a hantavirose não é transmitida por água, comida ou picadas de insetos. O risco permanece quase nulo para aqueles que evitam ambientes infetados por roedores.

Entretanto, a infecção pode resultar em sintomas que, inicialmente, assemelham-se a uma gripe forte: febre, dores corporais e, em alguns casos, náuseas. Rapidamente, a condição pode evoluir para uma síndrome cardiopulmonar agravada, levando a falta de ar, queda de pressão e insuficiência de múltiplos órgãos. Não há antivirais específicos, e as vacinas disponíveis em alguns países não cobrem as variantes presentes nas Américas. O tratamento é assistencial, geralmente em UTIs, com suporte respiratório e medicações que estabilizam a circulação.

Com um tratamento adequado, o Ministério da Saúde aponta uma letalidade média de 46,5% no Brasil, implicando que quase um em cada dois pacientes infectados não sobrevive.

Por que o caso do navio chamou tanta atenção

Existem mais de vinte espécies reconhecidas de hantavírus, com a maioria limitando-se à transmissão por roedores. Contudo, o vírus chamado Andes, encontrado na Argentina e Chile, pode, em circunstâncias excepcionais, ser transmitido entre seres humanos – geralmente em situações de convívio próximo, como casais na mesma cama ou profissionais de saúde sem proteção.

Esse foi o tipo de hantavírus associado ao surto no navio, cujo ambiente fechado – repleto de pessoas compartilhando cabines e refeições durante semanas – gerou um alerta elevado da OMS. Portos como o de Tenerife, nas Canárias, recusaram-se a receber o navio.

Entretanto, é importante destacar que, mesmo o vírus Andes possui baixa capacidade de transmissão entre humanos, não se comparando a doenças como covid-19 ou sarampo. A nota técnica da OMS sublinha que tais transmissões exigem contato muito próximo e prolongado.

A principal hipótese investigativa sugere que o casal que adoeceu inicialmente pode ter contraído o vírus em terra firme, durante uma viagem prévia pela América do Sul antes do embarque. O contexto do surto está sendo analisado, provavelmente ligado a uma atividade de observação de aves nas redondezas de Ushuaia, onde há presença de roedores. O longo período de incubação, que pode chegar a oito semanas, explica como alguém embarca saudável e adoece em alto-mar.

Por isso importa para o Brasil

A hantavirose não é uma doença importada no Brasil; é uma enfermidade endêmica. O primeiro caso confirmado ocorreu em 1993, em Juquitiba, São Paulo. Desde então, conforme dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, mais de 13 mil casos suspeitos foram notificados entre 2013 e 2023, com 758 confirmados, levando a quase 40% de óbitos. Em alguns estados, a letalidade superou 50%, como foi o caso do Maranhão, onde todos os casos confirmados resultaram em morte.

As variantes brasileiras de hantavírus apresentam denominações que refletem a geografia e a biologia: Araraquara, Juquitiba, Castelo dos Sonhos, entre outras. A variante do Cerrado, conhecida como Araraquara, é uma das mais agressivas. O Sul do país registra a maior quantidade de casos, enquanto a região Centro-Oeste concentra as maiores taxas de mortalidade.

Os principais cenários de risco estão bem definidos: a maioria das infecções ocorre em homens de 20 a 39 anos, especialmente em atividades rurais como limpeza de paióis, manuseio de grãos e contato com plantações infestadas. As casas de campo desabitadas e galpões antigos são locais propícios à transmissão.

As lições do surto do MV Hondius

Surto de doenças em ambientes fechados, como navios, prisões e asilos, servem como uma lupa que expõe a gravidade de enfermidades frequentemente ignoradas. O caso do MV Hondius mobilizou cinco países e trouxe à tona três lições já mencionadas por especialistas em infectologia e epidemiologia.

A primeira condiz ao fato de que uma doença rara não é sinônimo de ausência, mas sim de difícil detecção. A segunda aponta que o turismo de natureza globalizado pode propagar patógenos que antes estavam restritos a ecossistemas específicos. A terceira reafirma a importância da vigilância clínica antecipada — a identificação de sintomas, a solicitação de exames apropriados e a comunicação com as autoridades de saúde, que fazem a diferença entre um caso isolado e um surto em potencial.

Para os moradores urbanos que raramente frequentam áreas rurais, o risco de hantavirose é baixo. Por outro lado, aqueles que trabalham ou visitam frequentemente, devem redobrar os cuidados. O sistema de saúde brasileiro precisa levar em consideração que a hantavirose já é uma realidade no país e possui uma alta taxa de letalidade — cerca de quatro entre dez infectados — merecendo a mesma atenção que outras doenças mais conhecidas, apesar de não estarem sempre em evidência.

Como se proteger

As medidas preventivas são simples e acessíveis. Antes de adentrar em galpões, paiol ou casas de campo que foram fechadas, recomenda-se abrir portas e janelas e deixar arejar por no mínimo meia hora.

Antes de realizar a limpeza, umedecer o chão com água e água sanitária é essencial, já que a varrição a seco levanta poeira e, consequentemente, o vírus.

Além disso, os alimentos devem ser armazenados em recipientes bem fechados, e é importante eliminar entulho nas imediações das residências e vedar frestas que possam permitir a passagem de roedores. Aqueles expostos a maiores riscos devem utilizar máscaras de proteção (do tipo PFF2/N95) e luvas.

É fundamental atentar-se para o seguinte: a presença de febre alta acompanhada de dores no corpo, evoluindo rapidamente para falta de ar, em alguém que recentemente esteve em áreas rurais ou lidou com depósitos antigos, é um sinal para procurar atendimento médico e informar o profissional sobre a exposição. O diagnóstico precoce, embora não altere o tratamento farmacológico (pois não existem medicamentos específicos), pode aumentar consideravelmente a chance de internamento na UTI a tempo.



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