Memórias da Tragédia em Manaus: O Eco da Crise de Oxigênio
No início de 2021, Manaus, situada no epicentro da maior floresta tropical do mundo, vivenciou uma das fases mais sombrias da pandemia de covid-19. Enquanto a doença avançava, milhares de pessoas morreram asfixiadas em casa ou nos hospitais superlotados. Mesmo após cinco anos, o trauma da crise de oxigênio permanece, refletindo as falhas recorrentes do Estado brasileiro, como já havia sido destacado pela Agência Pública.
A crise de oxigênio no Amazonas tornou-se um marco trágico na história da pandemia no Brasil. As cenas de familiares desesperados, transportando cilindros de oxigênio pelas ruas, e o angustiante relato de médicos impotentes somam-se às imagens de valas comuns, formando um mosaico de horrores que a região ainda busca processar.
Em virtude da criação do Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19, instituído em 12 de março, o Brasil faz um esforço oficial para não esquecer a devastação causada pela pandemia. Essa escolha de data é significativa, pois remete ao falecimento de Rosana Aparecida Urbano, técnica de enfermagem de 57 anos, considerada a primeira vítima fatal da doença no país, em 2020.
A sanção do Projeto de Lei nº 2.120/2022 pelo governo federal é uma tentativa de homenagear as mais de 700 mil vidas perdidas para o vírus. Em seis capitais, incluindo Manaus, o Ministério da Saúde programou projeções com os nomes das vítimas em monumentos e espaços culturais, como no Centro Cultural Casarão de Ideias.
Luto Coletivo e Homenagens em Manaus
No Cemitério Nossa Senhora Aparecida, localizado no bairro Tarumã, zona Oeste de Manaus, mais de cinco mil vítimas da pandemia foram sepultadas, muitas em covas coletivas. Em novembro de 2025, foi inaugurada a “Praça do Anjo da Esperança”, que exibe uma escultura de três metros de altura, confeccionada em concreto, representando um anjo que usa máscara e segura um par de pulmões. Esta iniciativa foi apresentada pela Secretaria Municipal de Limpeza Urbana como uma homenagem tanto às vítimas da covid-19 quanto aos profissionais de saúde que se destacaram na linha de frente da luta contra a doença.
O luto coletivo em Manaus é um reflexo de uma crise sanitária que, conforme documentos inéditos revelados pela Pública, foi gerida com omissão pelo governo federal. Atas de 233 reuniões secretas, realizadas entre março de 2020 e setembro de 2021 no Palácio do Planalto, revelam que, sob a liderança do então ministro Eduardo Pazuello, o Ministério da Saúde ignorou alertas sobre o iminente colapso no sistema de saúde da capital amazonense.
Com o aumento de hospitalizações, o governo federal falhou em comunicar a gravidade da situação, criando uma falsa sensação de controle. Quando o colapso se tornou realidade em janeiro de 2021, resultando em mortes por asfixia devido à falta de oxigênio, a resposta inicial veio na forma do envio de 120 mil comprimidos de hidroxicloroquina, um medicamento sem eficácia comprovada.
Apenas após a intervenção do Supremo Tribunal Federal, o governo começou a tratar a crise no Amazonas com a urgência que merecia, revelando ainda a preocupação dos membros do governo com a imagem do país e a insistência em métodos de "tratamento precoce".
O Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 não apenas reconhece as vidas ceifadas, mas também serve como um lembrete dos desafios enfrentados pela população e das lições que ainda precisam ser aprendidas para que tragédias como essas não se repitam.
