Na terça-feira (28), o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) revogou a liminar que impedia, por um período de 70 dias, a abertura de editais do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para a contratação de empresas visando o asfaltamento da BR-319, rodovia que conecta Manaus a Porto Velho. O DNIT anunciou que relançará os editais “em data a ser definida”.
A pavimentação do trecho central da BR-319 desencadeia um embate entre dois projetos de desenvolvimento: um que prioriza o asfaltamento como motor de progresso, e outro que vê a preservação da floresta como a verdadeira infraestrutura de segurança climática e sanitária para o Brasil.
Além dos já conhecidos problemas de desmatamento e grilagem, a abertura definitiva da rodovia representa uma iminente ameaça à integridade biológica dos povos indígenas e à estabilidade global. O asfaltamento facilitará o avanço de ramais ilegais, conhecidos como “espinhas de peixe”, aumentando o contato humano com hospedeiros silvestres — um fenômeno amplamente criticado por especialistas em meio ambiente no país.
A fragmentação florestal resultante dessa atividade pode alterar o equilíbrio ecológico, elevando as chances de transbordamento viral (spillover), que ocorre quando patógenos saltam de animais para seres humanos. A Amazônia, um vasto reservatório de biodiversidade, também abriga inúmeros vírus desconhecidos, potencialmente mais perigosos do que os chamados “vírus zumbis” que podem ser liberados pelo derretimento do permafrost.
A abertura de novas fronteiras em regiões antes isoladas pode reativar microrganismos que estavam contidos em ecossistemas delicados. Em um mundo interconectado, uma mutação em um ramal da BR-319 poderia alcançar Manaus rapidamente e, em poucos dias, se espalhar globalmente.
Impacto nas Terras Indígenas
O efeito mais devastador pode ser sentido nas 69 Terras Indígenas que abrigam 18 povos, incluindo diversas comunidades em isolamento voluntário que seriam diretamente impactadas pela rodovia.
Essas comunidades, com históricos imunológicos distintos, correm o risco de ver doenças infectocontagiosas, como gripe e sarampo, introduzidas em seus meios, o que historicamente trouxe consequências devastadoras para seus modos de vida.
Além disso, o desmatamento, uma consequência do asfaltamento, atrai vetores de doenças tropicais. A alteração do regime hídrico e a formação de poças em áreas degradadas aumentam o risco de surtos de malária, leishmaniose e dengue, em locais que anteriormente mantinham um controle natural dessas enfermidades.
A mineração ilegal e a grilagem, incentivadas pela estrada, resultam no desvio de cursos d’água e na contaminação por mercúrio e outros metais pesados, comprometendo a saúde e o futuro das comunidades indígenas.
A negligência em relação aos riscos sanitários da BR-319 é uma ameaça a toda a vida. Caso o asfaltamento ocorra sem as devidas precauções científicas e sanitárias, a rodovia poderá se tornar um vetor de instabilidade global. Proteger o “coração da floresta” e seus guardiões é essencial não apenas por uma questão de preservação, mas como uma medida de Defesa Biológica Nacional.
Frente à pressão política e econômica por melhorias na rodovia, é vital que a ciência e a gestão pública estabeleçam um protocolo sanitário irrefutável.
Se o governo decide romper o isolamento geográfico do coração da Amazônia, deve assumir a responsabilidade de suprir as necessidades assistenciais da região de forma antecipada.
Plano Estratégico de Saúde é Necessário
O governo precisa reconhecer que o asfaltamento não pode ser realizado sem um Plano Estratégico de Saúde para a extensão da BR-319, que contemple, antes da conclusão das obras, a infraestrutura de saúde nos municípios circunvizinhos. Isso requer a construção de hospitais regionais de referência e unidades de pronto atendimento em localidades como Humaitá, Careiro e Manicoré.
A médio prazo, é urgente criar editais e incentivos para atrair médicos, enfermeiros, epidemiologistas e sanitaristas para a região, evitando o colapso na atenção básica diante do aumento populacional resultante do asfaltamento.
Estabelecer postos de monitoramento contínuo e laboratórios de fronteira capazes de realizar sequenciamento genético em tempo real é essencial. Isso transformaria a estrada em uma barreira de contenção de doenças, e não em um corredor de propagação. Esses laboratórios devem estar interligados a centros de excelência já existentes, como a Fiocruz Amazônia e instituições de pesquisa em São Paulo e no Rio de Janeiro.
É fundamental também ampliar e fortalecer os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), com a construção de unidades dentro das terras indígenas e um sistema de transporte aeromédico eficiente para emergências que a via possa exacerbar.
Em resumo, o custo do asfaltamento deve englobar também o custo da vida. Não podemos permitir que a integração terrestre se inicie sobre um sistema de saúde em colapso. A infraestrutura de transporte só será legítima se precedida por uma estrutura de cuidado humano, sob o risco de transformarmos a BR-319 em uma via de mão única para a disseminação de crises sanitárias.
A história nos ensina: o Brasil não pode repetir os erros do passado, como os que ocorreram durante a construção da Transamazônica, onde milhares de indígenas e trabalhadores perderam a vida. O legado da Comissão da Verdade é um poderoso lembrete das tragédias que marcaram aquele período.
Devemos honrar esse legado de dor. O progresso que silencia a ciência, ignora a biologia e despreza o humanismo não integra territórios; ao contrário, pavimenta o caminho para futuras catástrofes.
