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Bomfim: “Impeachment pode agravar mais ainda a crise no país”

Bomfim: “Impeachment pode agravar mais ainda a crise no país”

16 de abril de 2016

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EDUARDO BOMFIM acredita que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff pode agravar ainda mais a crise econômica no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)
EDUARDO BOMFIM acredita que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff pode agravar ainda mais a crise econômica no Brasil
(Foto: Arquivo Pessoal)

O alagoano Eduardo Bomfim tem uma longa, mas também admirável carreira ligada à vida política e à cultura do estado. Entrou para a política ainda jovem, como militante na Ação Popular (AP) em 1970. Em 1972, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e nessa mesma época também foi membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Alagoas. Foi presidente da Fundação Cultural Cidade de Maceió, secretário de Cultura do estado e secretário adjunto de Coordenação Política e Assuntos Internacionais da Presidência da República. Foi deputado federal constituinte e deputado estadual entre os anos de 83 e 86, fazendo oposição ao regime militar na Assembleia Legislativa de Alagoas. E é essa época, a da ditadura, que Eduardo Bomfim não deseja que volte a atuar no Brasil. Em entrevista especial ao jornal Tribuna do Sertão, Bomfim, no auge dos seus 66 anos, fala de política, economia e destaca o olhar de esperança para o futuro na nação brasileira.

Tribuna do Sertão (T.S.) Como o senhor vê o atual cenário político brasileiro?

 

Eduardo Bomfim (E.B.) Eu vejo uma enorme crise política que agrava os fatores econômicos. Temos uma crise no Brasil. Enquanto não for resolvido esse impasse, a crise econômica sofre com isso, pois ela tem os seus ingredientes somados à crise política. Esse impasse pode ser resolvido pelos atores que precisam encontrar uma solução, dentro da Constituição, para resolver todos os problemas. Enquanto isso, a população sofre as consequências. Mas vale ressaltar que também temos uma crise econômica internacional, que abala boa parte do mundo.

(T.S.) De que forma esses efeitos da crise política poderiam ser minimizar os efeitos sobre a crise econômica?

 

(E.B) A luta política entre os partidos, por mais defeituosos que eles sejam não são indissociáveis. Em outras palavras, a economia não resolve o fim da crise política, mas o fim da crise política resolve a economia. Em minha modesta opinião, as pedaladas fiscais, cometidas pelo governo Dilma Rousseff, não configuram um crime de responsabilidade fiscal. O próprio ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Melo, disse isso. A grande mídia nacional precisa ser imparcial, mas ela tem se transformado em um partido político de maior oposição. É ela quem acentua uma crise econômica maior do que a que existe. E isso não deveria acontecer. As pessoas precisam observar isso.

(T.S) Em sua opinião o que existe, de fato, por trás dessa crise econômica no país?

 

(E.B) A crise política. E os grandes bancos vão ficando mais ricos com isso. Mais do que já são. E essa é a parte especulativa da história. A crise é um motor de enriquecimento dos grandes bancos. A propaganda exagera a crise. Crise mesmo existe na Espanha, com 40% dos jovens desempregados. Não podemos dizer que a crise não existe no Brasil. Ela existe sim, mas a grande mídia é que multiplica ela.

(T.S.) O que significa, para o senhor, a onda pró-impeachment da presidenta Dilma Roussef?

 

(E.B) Acho que ela já foi maior. A sociedade percebeu que tudo isso faz parte de um golpe e foi tomando consciência da gravidade do impeachment. Principalmente a classe média. Acho que esse clima tenso que estamos vivendo nas ruas também tem gerado muita violência. Nunca vi tanto ódio, principalmente nas redes sociais. Mas e não fosse toda essa crise, poderia afirmar com convicção que a sociedade voltou a se interessar mais pela política. Artistas, políticos e a população têm participado intensamente das manifestações, inclusive contra o golpe.

E isso deveria ser algo contínuo, porque a política é uma coisa séria. Mas há um falso impasse: A Dilma diz que não sai da presidência e ela tem os seus direitos, pois foi eleita pelo povo.

Para ter uma nova eleição, como muitos querem, vai ter que haver uma renúncia coletiva, o que seria um suicídio coletivo para o povo.

(T.S.) O que pode acontecer ao Brasil, caso aconteça o impeachment?

 

(E.B.) O impeachment vai agravar ainda mais a crise brasileira. O Michel Temer tem apenas 1% de aceitação no país e nunca passou disso nas pesquisas. Ele não representa quem foi às ruas pedir o impeachment. Se isso acontecer, ele vai ter que compor contra ele mesmo. O Temer seria um presidente de uma população sem base. Ele não vai ter a simpatia de quem foi às ruas a favor com impeachment. Se a Dilma sair, agrava ainda mais a crise.

(T.S.) O que isso pode representar para a história da política brasileira?

 

(E.B) A batalha é grande. A nova geração nunca viveu um momento como esse. Isso extrai lições, conhecimento e participação na história.

Mas é preciso respeitar o outro, suas opiniões e saber conviver nas adversidades. As pessoas falam, mas não ouvem o outro, principalmente nas redes sociais. Está tudo muito viralizado.

É uma onda de ódio e intolerância ao próximo sem limites. Eu que vivi uma ditadura, com forças policiais nas ruas, onde as classes artísticas e os jornalistas não tinham vez, sei o que estou falando. A ditadura é uma paz de cemitério. Tem muita gente interessada nesse ódio que se apresenta por aí, mas Brasil não merece isso. Vivemos em uma democracia.

O nosso país é o sétimo na economia mundial e vai sair desse aperto em que se encontra. Só quem resolve esse impasse é a repactuação pela governabilidade. Como se diz, a democracia é uma planta que precisa ser regada todos os dias, ou ela morre. Todos nós, mais de 200 milhões de brasileiros, somos responsáveis por ela.

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