Debate na Câmara dos Deputados aponta risco de extinção dos jumentos no Brasil
14/05/2026 – 18:19
Vinicius Loures / Câmara dos Deputados
Durante audiência na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, realizada nesta quinta-feira (14), cientistas e ativistas alertaram para o iminente risco de extinção dos jumentos no Brasil. Os especialistas cobram urgência na aprovação do Projeto de Lei 2387/22, que visa proibir o abate desses animais para consumo, comércio ou exportação.
De acordo com dados da The Donkey Sanctuary, a população de jumentos no país despencou de 1,3 milhão no final dos anos 90 para apenas 78 mil em 2025, o que representa uma redução alarmante de 94%. A perspectiva é ainda mais sombria: a espécie pode extinguir-se até 2030. Este declínio populacional é atribuído ao abate dos animais para extração de pele, utilizada na fabricação do ejiao, um remédio tradicional na medicina chinesa, além da carne sendo empregada em rações animais.
José Roberto Lima, presidente da Comissão de Medicina Veterinária Legal da Bahia, denunciou a captura ilegal de jumentos no Nordeste. “Esses animais são reunidos em fazendas sem qualquer histórico de saúde ou rastreabilidade, o que é inaceitável”, destacou.
Casos de doenças como anemia infecciosa equina e mormo já foram identificados entre esses jumentos. Lima apresentou evidências de exportações ilegais realizadas por frigoríficos em cidades da Bahia, com destinos que incluem China, Hong Kong e a União Europeia.
Eduardo Santurtun, diretor das Américas da The Donkey Sanctuary, ressaltou que a União Africana já instituiu em 2024 uma proibição sobre o abate de jumentos em todos os 55 países do continente. Ele instou o Brasil a assumir a liderança nessa causa na América Latina: “O papel do Brasil é crucial para a proteção dos jumentos e para inspirar outros países”, afirmou.
O deputado Célio Studart (PSD-CE), um dos organizadores da audiência, prometeu pressionar a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para que haja uma votação do projeto, que já obteve aprovação nas comissões de Agricultura e de Meio Ambiente. "Esperamos que a CCJ conclua essa votação. Nos últimos dois anos, quase 250 mil jumentos já foram sacrificados", lamentou.
Preservação da Caatinga
Patrícia Takemoto, coordenadora de campanhas da The Donkey Sanctuary, ressaltou a importância dos jumentos na preservação da Caatinga, destacando que sua criação intensiva não é viável, ao contrário do que ocorre com os bovinos. “Esses animais desempenham um papel fundamental no controle de espécies invasoras e na restauração de ecossistemas nativos”, disse.
Com uma estimativa global de 53 milhões de jumentos, cerca de 10% são abatidos para a produção de ejiao. O mercado desse remédio cresceu de US$ 3,8 bilhões em 2015 para US$ 7,2 bilhões em 2022, e a demanda por pele de jumento deverá saltar de 1,2 milhão de unidades em 2013 para 6,8 milhões em 2027.
Porém, especialistas estão investigando alternativas sustentáveis para a produção de ejiao, utilizando colágeno bioecológico, promovendo uma abordagem mais ética e segura.
Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Geórgia Moraes
