Flávio Bolsonaro: entre negações e relações polêmicas em ano eleitoral
Horas antes da divulgação de conversas confidenciais que expõem o pré-candidato à presidência e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em negociações com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o filme "Dark Horse", o parlamentar negou qualquer ligação entre o longa e Vorcaro, que está preso pela Polícia Federal. “É mentira! De onde você tirou essa informação?”, respondeu ao repórter do Intercept Brasil, responsável por revelar o conteúdo.
A negativa de Flávio sobre a cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, revela um padrão de comportamento observado em várias ocasiões: a tentativa de desmentir fatos consumados. Curiosamente, na mesma noite em que fez a negação, em um vídeo que publicou para se defender, ele contradiz sua própria declaração ao reconhecer e normalizar os relacionamentos que horas antes negou. Em seguida, Flávio procurou atacar a base governista com uma nova informação falsa, repetida por seus apoiadores: que o filme não teria recebido financiamento público.
Com o impedimento de Jair Bolsonaro, condenado e preso por tentativa de golpe, Flávio se posiciona como líder da ultradireita nas próximas eleições. A Agência Pública destaca uma estratégia negacionista crescente em ano de votação, com outros episódios em que o congressista se omitiu de verdades.
Relação entre a direita e o caso Master: “narrativa falsa”?
Em abril de 2026, Flávio descreveu como “narrativa falsa” a associação entre políticos da direita e extrema direita ao caso Master, mesmo diante de evidências claras de conexões entre apoiadores do senador e Vorcaro. A investigação da Polícia Federal aponta um suposto pagamento de R$ 300 mil mensais de Vorcaro ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil, em troca de vantagens no Parlamento.
Ciro Nogueira chegou a apresentar ao Senado uma proposta elaborada por assessores do Master: a PEC 65/2023, que favoreceria diretamente o banco, implicando em riscos ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Embora a proposta não tenha progredido, a relação política se estende à campanha presidencial de Jair e ao governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo, com doações relevantes de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, no centro da investigação.
Dinheiro público no filme sobre Bolsonaro
Após o vazamento dos áudios, Flávio alegou que “Dark Horse” não recebeu investimentos públicos. Entretanto, uma reportagem do Estadão revelou que o deputado Mário Frias (PL-SP), ex-ministro da Cultura de Bolsonaro e roteirista do filme, enviou R$ 2 milhões em emendas parlamentares à produtora. Essa transação, realizada em 2024 pelo Instituto Conhecer Brasil, gerou uma ação contra Frias no Supremo Tribunal Federal, que agora aguarda explicações sobre os repasses financeiros.
A Polícia Federal investiga ainda possíveis irregularidades no funcionamento do Banco Master, incluindo o uso indevido de recursos de previdência e a compra de fundos de precatórios. A ilegalidade nessa prática se intensifica pela possibilidade de contestação dos valores pela União, levantando a questão se os recursos recebidos por Vorcaro não seriam provenientes de dinheiro público.
A paternidade do PIX
Na tentativa de atribuir a criação do sistema de pagamento instantâneo, Flávio lançou a frase de “o PIX é do Bolsonaro”, desconsiderando que o conceito foi desenvolvido em 2018, durante o governo Michel Temer. Embora Bolsonaro utilize o sistema desde seu lançamento, sua campanha foca em associar a iniciativa a Jair, mesmo sem respaldo nos fatos.
Fome no governo Lula
Em uma crítica ao governo Lula, Flávio usou um vídeo de pessoas catando comida no lixo para afirmar que a gestão do PT gerava uma crise de pobreza. No entanto, as imagens eram de outubro de 2021, durante a gestão de Jair Bolsonaro — um exemplo claro de desinformação.
Meias-verdades e prazos de validade
Flávio Bolsonaro apresenta ainda uma série de contradições que não podem ser rotuladas exatamente como mentiras. Em abril de 2024, quando afirmava ser contra o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, seu posicionamento mudou em julho de 2025, quando protocolou um pedido de impedimento. A proposta de acabar com a reeleição se contradiz com suas aspirações pessoais de um governo de oito anos, revelando um jogo de conveniência política.
O senador, portanto, se posiciona em meio a uma teia de falsidades, nexos conturbados e contradições que podem moldar a narrativa eleitoral que se aproxima.
