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Marta Bergamin: O Impacto da Inteligência Artificial no Futuro do Trabalho

Marta Bergamin: O Impacto da Inteligência Artificial no Futuro do Trabalho

1 de maio de 2026

Autores:

Guilherme Silva


Desde a Revolução Industrial, a relação entre o ser humano e a máquina tem sido marcada por conflitos. No começo do século 19, trabalhadores ingleses do setor têxtil se uniram para destruir máquinas que ameaçavam seus empregos, movimento que ficou conhecido como Ludismo. Embora hoje muitos considerem essas ações ingênuas, a narrativa permanece: a ideia de que o progresso é imbatível, e que ao trabalhador resta apenas se adaptar e aprender a operar as novas tecnologias.

Atualmente, essa situação se repete com a ascensão da Inteligência Artificial (IA) no ambiente de trabalho. As tecnologias de IA não apenas automatizam tarefas, mas também facilitam processos seletivos, Avaliam o desempenho dos funcionários e vislumbram um futuro no qual a presença humana nas operações se torne obsoleta. As incertezas sobre a viabilidade desse futuro são grandes, mas o investimento crescente das empresas em IA é inegável, e os trabalhadores frequentemente se veem compelidos a se adaptar.

Para aprofundar a discussão sobre o impacto da IA no mercado de trabalho, o podcast Pauta Pública contou com a participação da socióloga e psicanalista Marta Bergamin, coordenadora do curso de pós-graduação em Sociopsicologia e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política (Fesp).

Em um dos momentos mais reveladores da conversa, Bergamin trouxe exemplos concretos que ilustram as dificuldades atuais. Um ex-funcionário de uma operadora de telefonia relutou ao contar que após doze anos de trabalho, viu sua área obliterada pela IA. Ao procurar novas oportunidades, ele percebeu que todos os processos seletivos agora incluíam uma triagem automatizada, que não apenas analisava currículos, mas também traçava perfis psicológicos e ideológicos dos candidatos — em muitas ocasiões, mesmo sem feedback.

Outro caso destacado foi de um programador experiente que relatou que uma parte significativa de seu trabalho agora envolve "ensinar" a IA a desempenhar funções. Essa transição tem despertado preocupações sobre um mercado de trabalho em constante transformação e com um futuro incerto.

Bergamin destacou como a IA está se infiltrando em diferentes setores de maneira sutil, sem promover, até agora, um desemprego em massa, mas com impactos já visíveis em algumas áreas. A ascensão das Big Techs também foi um ponto de discussão, visto que a concentração de poder econômico resulta em um controle crescente sobre a arquitetura e regulamentação da IA, perpetuando desigualdades.

Um aspecto alarmante que surgiu foi a maneira como esses novos paradigmas de trabalho afetam as expectativas dos jovens. Com a narrativa de que a IA pode substituir os humanos, a crise de futuro se intensifica. A distinção entre trabalhos criativos e mecânicos também foi ressaltada, apontando para uma possível divisão entre uma elite altamente qualificada e uma massa de trabalhadores relegados a funções cada vez mais automatizadas.

A concentração de renda, exacerbada durante a pandemia, foi igualmente debatida. As Big Techs expandiram suas operações, capturando segmentos do mercado de trabalho que antes eram tradicionais, substituindo experiências significativas por novas formas de renda mediadas por plataformas digitais.

Essas mudanças estão redefinindo não apenas a natureza do trabalho, mas também a identidade das pessoas, que começam a buscar sentido fora do emprego. Problemas como o crescimento da violência, especialmente contra mulheres, e a ascensão de discursos conservadores entre os jovens também foram temas abordados na conversa.

Os desafios são muitos, mas Bergamin conclui que, para o futuro do trabalho, é essencial estabelecer um planejamento mais sustentável e inclusivo, chamando a atenção para questões como a qualificação de mão de obra e as possibilidades de uma renda do trabalho mais justa e acessível. A discussão sobre a regulamentação e o uso ético da IA, assim como o desenvolvimento de um modelo econômico que distribua riqueza de maneira mais equitativa, é indiscutivelmente crucial para moldar o futuro do trabalho diante das incertezas que se apresentam.



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