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Obesidade: A Necessidade de Tratamento Contínuo com Canetas Emagrecedoras para a Maioria dos Pacientes

Obesidade: A Necessidade de Tratamento Contínuo com Canetas Emagrecedoras para a Maioria dos Pacientes

27 de abril de 2026

Autores:

Maria Fernanda Barca, Médica, doutora em Endocrinologia e membro do grupo de Tireoide do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP)


Obesidade: Uma Doença Crônica que Requer Manejo Contínuo

A Ciência já estabeleceu categoricamente que a obesidade é uma condição crônica, progressiva, inflamatória e multifatorial, conforme apontado por organizações de saúde de renome. Essa realidade implica que a obesidade não pode ser tratada como um mero problema pontual ou algo que se resolve com intervenções rápidas. Tal como ocorre com doenças como asma e hipertensão, o manejo da obesidade demanda um acompanhamento contínuo e um forte engajamento do paciente para que os resultados se mantenham.

Diante dessa perspectiva, o tratamento medicamentoso da obesidade deve ser encarado não como uma solução temporária, mas como parte de uma estratégia abrangente. Os medicamentos mais recentes, frequentemente referidos como "canetas emagrecedoras", desempenham um papel vital no controle da condição, embora não ofereçam cura. Eles atuam em mecanismos biológicos que regulam apetite, saciedade e gasto energético. Por essa razão, o uso desses medicamentos pode ser necessário de forma contínua ou prolongada para evitar o reganho de peso.

Entre as opções disponíveis, estão a semaglutida e a tirzepatida. A semaglutida é comercializada sob diferentes formatos, como Ozempic® e Wegovy®, enquanto a tirzepatida está disponível no medicamento Mounjaro, aprovado para o tratamento do diabetes tipo 2, com aplicação também em casos de obesidade.

Esses medicamentos imitam hormônios intestinais, promovendo a redução do apetite, aumentando a sensação de saciedade e desacelerando o esvaziamento gástrico. Caso o uso seja interrompido, os efeitos benéficos desaparecem rapidamente, levando ao retorno ao peso anterior. Isso ocorre porque o corpo, ao perceber a perda de peso, ativa mecanismos defensivos que incentivam o armazenamento de gordura.

Importância do Acompanhamento Constante

Outra questão crucial é que as células de gordura não desaparecem; elas simplesmente encolhem e permanecem prontas para acumular gordura novamente. Para complicar, fatores emocionais, como a ansiedade, podem exacerbar a compulsão alimentar. Assim, os medicamentos podem servir como ferramentas importantes no combate a esses desafios.

A necessidade de tratamento contínuo se torna ainda mais evidente em casos onde existe um histórico de obesidade na juventude ou condições associadas, como diabetes e alterações hormonais durante a menopausa. A menopausa, por exemplo, é um período crítico, onde a queda de estrogênio contribui para o aumento da gordura visceral, elevando o risco de doenças cardíacas.

Adicionalmente, a presença da síndrome metabólica, que inclui hipertensão e resistência à insulina, é comum nesses contextos. Os agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, não apenas ajudam na perda de peso, mas também melhoram o controle glicêmico e impactam fatores de risco cardiovascular, reforçando sua função como tratamento a longo prazo.

É importante ressaltar que a continuidade do tratamento não significa que o paciente precisará de altas doses indefinidamente. A redução da dose pode ocorrer gradualmente, sempre sob supervisão médica. A interrupção abrupta do tratamento, por escolha do paciente sem orientação profissional, é desaconselhada.

Numa abordagem positiva, alguns pacientes conseguem descontinuar o uso das canetas emagrecedoras após uma mudança significativa de estilo de vida, demonstrando que a adoção de hábitos saudáveis e a atividade física são fundamentais no controle da obesidade.

Desafios de Acesso e a Necessidade de um Atendimento Multidisciplinar

O tratamento da obesidade deve ser multidisciplinar, envolvendo endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos e profissionais de educação física, que ajudam a personalizar as intervenções para cada paciente. Contudo, o custo elevado dos medicamentos ainda é um obstáculo para muitos, e a expiração da patente da semaglutida no Brasil pode abrir caminho para a produção de genéricos, aumentando a acessibilidade.

Tratar a obesidade é não apenas viável, mas necessário. É fundamental enxergar a obesidade como uma doença crônica, em vez de atribuí-la a uma falha individual. Essa abordagem requer conscientização dos pacientes e responsabilidade dos profissionais de saúde. Assim, a discussão sobre a ampliação do acesso aos medicamentos modernos transcende o campo da medicina, tornando-se uma questão prioritária de saúde pública.



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