"Divisões Internas e Interesses Americanos: As Verdadeiras Ameaças à Europa"

26 de maio de 2025

Autores:

Rodrigo Ruiz, PhD by the Intelligent Systems Research Centre of the School of Computing and Digital Media of London Metropolitan University e servidor público, Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer


Nos últimos anos, a narrativa predominante na segurança europeia tem se centrado na alegada “ameaça russa”. Entretanto, uma análise histórica mais profunda sugere que as maiores ameaças à União Europeia (UE) são, na verdade, internas e vêm de seu aliado de longa data, os Estados Unidos. Até o Canadá tem experimentado esse impacto, como aponta um estudo recente. Este texto destaca que a excessiva dependência europeia dos EUA, aliada a suas próprias divisões políticas e econômicas, configura riscos significativos para sua sobrevivência, superando qualquer ação da Rússia.

Rússia: Uma História de Defesa

Historicamente, a Rússia tem sido alvo de invasões por potências ocidentais, o que trouxe impactos políticos, econômicos e humanitários devastadores. Desde as invasões napoleônicas até os ataques nazistas na Segunda Guerra Mundial, a nação sempre lutou para preservar sua soberania. Esse histórico contribuiu para uma mentalidade defensiva que perdura até hoje.

No artigo “Europe, the need to seek strategic autonomy in the multipolar era, abandoning US interests and improving its relations with Russia”, publicado na Revista Caderno Pedagógico, apresentamos uma análise minuciosa das intervenções militares ocidentais no território russo ou soviético, desde as guerras napoleônicas até a Guerra Fria.

Durante a Guerra Civil Russa (1917-1922), por exemplo, forças dos EUA, Reino Unido, França, Japão e outros países intervieram diretamente, apoiando os Brancos contra o governo bolchevique. Essas ações não só intensificaram o caos interno, mas também solidificaram a percepção russa de um cerco externo.

Ademais, a expansão da OTAN após a Guerra Fria foi interpretada pela Rússia como uma violação de promessas feitas durante a reunificação da Alemanha. A inclusão de países como Polônia, Hungria e República Tcheca na aliança militar ocidental, além da adesão de estados bálticos e os planos de Ucrânia e Geórgia, acentuaram a sensação de ameaça direta à segurança russa. É importante ressaltar que a doutrina militar russa é essencialmente defensiva, voltada para a contenção de potenciais adversários, e não para ações ofensivas.

A Ilusão da “Ameaça Russa”

A expansão da OTAN para o Leste Europeu tem sido geralmente justificada como um escudo contra a Rússia. No entanto, essa perspectiva ignora o fato de que o comportamento russo, historicamente, tem sido uma resposta a pressões externas, sempre buscando a proteção de sua soberania. Como enfatizado por especialistas, incluindo Mario Draghi em seu relatório sobre competitividade europeia, as reações da Rússia são frequentemente exacerbadas no Ocidente, refletindo mais as políticas dos EUA do que uma ameaça real.

Além disso, as sanções contra a Rússia têm se mostrado ineficazes, impactando mais a economia europeia do que a capacidade do governo russo. Ao mesmo tempo, o fortalecimento da aliança entre Rússia e China pode resultar em consequências desfavoráveis para a Europa a longo prazo.

Os EUA: Um Aliado Ambivalente

Tradicionalmente vistos como protetores da Europa, os Estados Unidos têm adotado uma postura cada vez mais unilateral e imprevisível. Durante o governo Trump, as guerras comerciais e os comportamentos controversos em relação à soberania de países como Canadá e Groenlândia levantaram dúvidas sobre a confiabilidade dos EUA como parceiro estratégico. Pesquisas indicam que muitos europeus consideram os EUA mais como um “parceiro necessário” do que um aliado confiável.

É preocupante, ainda, a dependência militar da Europa em relação aos EUA. A OTAN, que deveria ser uma aliança igualitária, se tornou, na prática, uma extensão da política externa americana. Isso compromete a autonomia da Europa e a enreda em conflitos que não necessariamente refletem seus interesses, como as guerras impulsionadas pela indústria armamentista dos EUA.

Fragmentação Interna: O Verdadeiro Inimigo da UE

Se há algo claramente ameaçador à UE, vem de suas próprias entranhas. As crescentes divisões entre os Estados-membros transparecem nas diversas abordagens em relação à Rússia. Enquanto a Polônia defende um enfrentamento, Alemanha e França optam pelo diálogo e pela desescalada. Essas diferenças comprometem a capacidade da UE de se afirmar como uma força global coesa.

Adicionalmente, a ascensão do nacionalismo e as desigualdades econômicas entre os países membros ameaçam a coesão da união. A inabilidade de tomar decisões estratégicas em questões críticas, como defesa e energia, torna a Europa vulnerável em um mundo multipolar.

O Caminho a Seguir

Para assegurar sua relevância no cenário global, a Europa precisa assumir o controle de sua própria segurança e crescimento. Isso envolve:

· **Reconstruir a indústria europeia**: Reduzir a dependência de importações de matérias-primas e tecnologias é fundamental para fortalecer a economia da UE.

· **Promover a unidade interna**: Superar divisões políticas e econômicas entre os Estados-membros é vital para fortalecer a UE como ator global.

· **Revisar alianças estratégicas**: A Europa deve buscar parcerias mais equilibradas com potências emergentes, como os países do BRICS, e explorar oportunidades comerciais com blocos como o Mercosul.

· **Buscar autonomia da OTAN**: Em vez de depender dos EUA, a Europa deve investir em uma política de defesa independente, coordenando recursos e eliminando redundâncias para agir em prol de seus próprios interesses.

A ideia de que a Rússia é a maior ameaça à Europa muitas vezes é uma simplificação, se não uma distração. As verdadeiras ameaças à UE são suas divisões internas e sua dependência em relação aos EUA. Para evitar um colapso ou conflitos internos, a Europa precisa revisar suas prioridades e agir decisivamente em direção a uma autonomia estratégica. Isso exigirá sacrifícios, mas o histórico mostra que os europeus estão prontos para enfrentar desafios quando necessário. É hora de introspecção e de construir um futuro mais resiliente e independente para a Europa.



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