Cidades Afetivas: A Urgência do Cuidado e da Regeneração em Tempos de Crise
"O local, o regional e o global estão conectados em escala a relações simbióticas e de apoio mútuo." – Daniel Christian Wahl.
Num momento marcado por múltiplas crises que vão desde as mudanças climáticas até transformações sociais pós-pandemia, repensar o cuidado se torna imprescindível.
Um dado alarmante do Ministério da Previdência Social revela um aumento de 68% nos afastamentos do trabalho por transtornos mentais no Brasil, entre 2023 e 2024. Essa estatística enfatiza a necessidade urgente de incluir o burnout na lista de doenças ocupacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de implementar práticas preventivas que cuidem da saúde mental no ambiente laboral.
A pesquisa intitulada Cidades Afetivas: do local para o global, sob a coordenação da pesquisadora Vivian Ap. Blaso Souza Soares César e supervisão do professor Pedro Roberto Jacobi, no Instituto de Estudos Avançados da USP, adota uma perspectiva regenerativa para analisar o campus da USP como um organismo vivo, onde as redes de afeto e convivência são essenciais para a construção de um espaço mais humano e sustentável.
A pesquisa é guiada pela pergunta: Como construir territórios que sustentem a vida e promovam a regeneração a partir da afetividade? Para respondê-la, os pesquisadores exploram as dinâmicas do território local em diálogo com conceitos de Bem-Viver, Convivialismo e Vida em Comum. Essa tríade visa criar ambientes mais inclusivos e generosos, articulando-se com teorias contemporâneas, como o Design Regenerativo de Daniel Christian Wahl e a Economia Donut de Kate Raworth.
Cuidado: O Pilar das Cidades Afetivas
A concepção de Cidades Afetivas surge como uma resposta à fragmentação urbana e à erosão dos laços comunitários. Trata-se, acima de tudo, de um compromisso com a construção de espaços em que o bem-viver, a convivialidade e a vida em comum estejam no centro das dinâmicas sociais. A pesquisa identificou quatro dimensões essenciais para fomentar a afetividade no território:
- Relações de Afetividade e Convivialidade: fundamentais para fortalecer laços sociais e um sentimento de pertencimento.
- Saúde e Bem-Estar: essenciais para garantir qualidade de vida e um equilíbrio saudável entre corpo, mente e ambiente.
- Engajamento e Sustentabilidade: visam promover a participação cidadã e práticas regenerativas.
- Dimensão Cultural e Ambiental: necessárias para resgatar identidades territoriais e estreitar a conexão entre os indivíduos e a natureza.
A metodologia incluiu grupos focais com professores, pesquisadores e funcionários da USP, além de uma pesquisa com estudantes da geração Z, a fim de validar crenças e valores percebidos pelos grupos.
Desafios e Caminhos a Percorrer
Os principais achados destacaram que a falta de espaços para encontros informais, o distanciamento entre administração e comunidade acadêmica, e relações predominantemente individualizadas, dificultam a construção de vínculos no campus da USP. A pesquisa apontou que 52,3% dos alunos raramente ou nunca utilizam os espaços culturais, e 71,6% não frequentam equipamentos esportivos.
Esses dados revelam um modelo acadêmico que favorece o individualismo e a competitividade, minando a colaboração entre diferentes áreas do conhecimento. Os professores e funcionários expressaram a necessidade de criar ambientes acolhedores que estimulem interações espontâneas. Além disso, 52,3% dos estudantes disseram confiar apenas moderadamente na administração do campus, indicando um distanciamento que reforça a urgência de uma governança mais afetiva.
Em Direção a Uma Universidade Regenerativa
Os achados da pesquisa não se limitam ao âmbito universitário; eles trazem reflexões cruciais para as cidades do futuro. A experiência de Amsterdã, que adotou o modelo da Economia Donut como diretriz para o desenvolvimento urbano, comprova ser viável o equilíbrio entre bem-estar social e limites ecológicos.
Esse exemplo sugere que instituições como a USP podem desempenhar um papel central na construção de novos paradigmas urbanos, atuando como laboratórios de experimentação que conectem ciência, sociedade e políticas públicas. Contudo, essa mudança exige não apenas uma transformação cultural, mas também uma nova percepção sobre a relação entre as pessoas e seus territórios.
O grande desafio agora é traduzir esses conhecimentos em ações concretas, criando um laboratório vivente de experiências que cultivem novas formas de convivência e a construção coletiva de uma sociedade mais afetiva, resiliente e regenerativa.
O campus da USP deve se transformar em um espaço que priorize o bem-viver e o desenvolvimento individual, inserido em um contexto de desenvolvimento coletivo e harmônico entre ser humano e natureza. Ao recuperar o significado do verbo "cuidar" como um princípio estruturante do planejamento territorial, abrimos caminho para reinventar o futuro.
Como propõe Wahl, o futuro é um processo colaborativo e participativo. Que a USP se firme como um farol dessa transformação, inspirando outras comunidades a seguir esse caminho.
