A noção grega de identidade se mantém relevante no cenário contemporâneo, permeando discussões que vão desde filosofia até direitos humanos. A ideia de que "se branco é branco, então não pode ser não branco" ilustra uma perspectiva binária que se infiltra em diversas esferas, incluindo a concepção de propriedade privada. A propriedade, tanto material quanto intelectual, é frequentemente vinculada à identidade individual, sendo que o domínio sobre si mesmo é visto como a base para a apropriação.
Esse conceito se liga a uma tradição religiosa que distingue entre seres humanos — sujeitos com direitos — e a natureza — objeto passível de exploração. Essa dualidade também se reflete na pesquisa científica, onde pesquisadores se posicionam como sujeitos em relação aos objetos de estudo, e na estratificação social, onde os possuidores de bens são tratados com mais dignidade do que os sem posses, cujas humanidades são frequentemente colocadas em questão.
Um olhar histórico revela a desumanização das pessoas escravizadas no Brasil, que, por séculos, foram relegadas a meras propriedades. O tráfico negro trouxe indivíduos africanos que, na nova terra, eram muitas vezes misclassificados como "negros da terra". A legalidade do tráfico foi questionada apenas em 1850, e, paradoxalmente, o preço da "propriedade" dessas pessoas aumentou, alimentando o tráfico interno. Mesmo aqueles que conseguiam a liberdade enfrentavam desconfiança e a necessidade de documentação para comprovar seu status.
A extinção oficial de povos indígenas no século XIX também ilustra essa questão. A reclassificação de indígenas para caboclos ou negros da terra resultou na perda de seus direitos legais sobre suas terras. Sem documentação que comprovasse sua identidade, muitos foram forçados a deixar seus lares, sendo obrigados a vender seu tempo como trabalhadores mal pagos.
Hoje, assistimos a um movimento de reparação histórica para pessoas pretas, pardas e indígenas, através de políticas públicas afirmativas. No entanto, continuam a surgir questionamentos sobre a autenticidade dessas identidades, frequentemente baseados em características fenotípicas. Essa confusão entre "ter" e "ser" ignora a diversidade de experiências culturais e históricas que deveria ser levada em conta.
Esse debate suscita uma reflexão sobre como as lógicas afrobrasileiras e indígenas estão sendo integradas nas políticas públicas. A preocupação de que um foco excessivo na identidade possa reforçar divisões entre grupos marginalizados é uma questão premente. Afinal, em um contexto de opressão compartilhada, a unidade e a solidariedade podem ser as chaves para enfrentar os desafios comuns que esses grupos enfrentam em nossa sociedade.
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