Por Alecsandra Matias de Oliveira, Professora do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc) da Escola de Comunicações e Artes da USP
Rosana Paulino se destaca cada vez mais como uma das vozes mais contundentes da arte afro-brasileira, cujas obras têm conquistado reconhecimento tanto nacional quanto internacional. Sua produção desafia as convenções, abordando questões complexas como hipersexualização, violência e colonialidade, e sempre à luz de uma narrativa que entrelaça a experiência pessoal com a história do Brasil.
Arrojada em seu posicionamento, Paulino não tem medo de confrontar o racismo enraizado na sociedade brasileira—aquele que a historiadora Beatriz Nascimento descreveu como “um emaranhado de sutilezas”. Suas obras são frequentemente categorizadas dentro do escopo político-estético da arte afro-brasileira, mas a profundidade de suas temáticas não pode ser subestimada. A artista expõe a crueza do passado colonial, elucidando suas reverberações na contemporaneidade e, mais ainda, provoca reflexões que ultrapassam as expectativas iniciais.
A recepção de suas obras revela a multiplicidade de camadas interpretativas que vão além da intenção original do artista. Assim, cada peça convida o espectador a questionar e decifrar: “Decifra-me!” Essa interação nos instiga, subverte nossas certezas e resgata a noção de que um repertório cultural robusto é essencial para a apreciação estética e política. No universo de Paulino, esta necessidade é ainda mais evidente, pois há uma interpelação constante à intersecção entre arte e ciência—ainda que essa relação tenha recebido pouca atenção até agora.
A artista, que possui formação em artes visuais e educação e nutre um interesse perene pela Biologia, combina saberes científicos com temáticas de ancestralidade, corpo e território. Através de sua obra, questões sociais, étnicas e de gênero são revisitadas, incorporando um discurso amplo que desafia narrativas racistas e sexistas.
Uma das suas série de destaque, “Aracnes” (1996), expõe a resiliência feminina, utilizando o símbolo da aranha para reforçar laços entre mulher e natureza. Cada bordado, cada colagem, evoca a luta diária das mulheres, assim como a história pessoal da artista, cuja mãe se dedicava ao ofício de costura e bordado. Ao passar dos anos 2000, o diálogo entre arte e ciência se intensifica, ressoando em suas criações e estabelecendo uma parabólica relação com práticas artísticas contemporâneas.
Em sua produção, Paulino transforma a percepção das práticas científicas que por séculos foram utilizadas para colonizar e dominar, subvertendo na arte essas narrativas de opressão. Obras como “Assentamento” (2013) e “As Filhas de Eva” (2014) oferecem uma reinterpretação visual da escravidão e suas consequências, utilizando intervenções artísticas que questionam a validade e a moralidade dos registros estabelecidos.
Recentemente, em séries como “Mangue” (2023), Paulino retrata a estrutura simbólica e ecológica desse bioma, colocando em evidência a luta e a resistência inerentes às comunidades que dependem desses ecossistemas vulneráveis. Cada obra é um convite à reflexão sobre a interdependência entre humanos e natureza e, por fim, um chamado necessário à sustentabilidade.
Rosana Paulino não só expõe questões que nos interpelam, mas também evoca um futuro onde arte e ciência podem coexistir em harmonia, promovendo uma compreensão mais profunda das relações entre a humanidade e o meio ambiente. Através de seu trabalho, somos levados a considerar o impacto de nossa história, a necessidade de reparação e a possibilidade de construção de um futuro mais justo e equitativo.
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