Por Gislene Aparecida dos Santos, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP
Recentemente, escrevi um texto reflexivo intitulado Racismo institucional, medos, ameaças e outros males, no qual analiso os desafios enfrentados por pessoas negras no ambiente acadêmico. É crucial esclarecer que aceitação e tolerância são conceitos distintos; enquanto a aceitação implica um tratamento igualitário, a tolerância frequentemente se baseia em hierarquias e discriminações.
A busca pela equidade requer a implementação de mecanismos que confrontem as desigualdades raciais arraigadas em nossa sociedade. Tolerar, por outro lado, é um ato muito menos substancial, que depende da conformidade a determinados padrões estabelecidos. Assim, a realidade para muitos acadêmicos negros no Brasil é a de serem basicamente tolerados, contanto que se ajustem a uma série de precondições.
Para serem aceitas em ambientes acadêmicos, muitas vezes, as pessoas negras se veem compelidas a incorporar características que reduzam sua "ameaça". Isso pode ocorrer de diferentes maneiras: fisicamente, através de uma maior "passabilidade" social, ou simbolicamente, ao moldar seus comportamentos e características para se alinhar ao que a sociedade branca considera desejável.
Assim, esperam-se alguns comportamentos de acadêmicos negros para que sejam ‘tolerados’:
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Aparência e apresentação: A ideia de elegância geralmente exclui a diversidade da estética negra. Cabelos naturais, especialmente entre mulheres negras, são frequentemente sujeitos a críticas e normas rigorosas, que favorecem apenas os estilos alinhados ao que é visto como ‘aceitável’ pela sociedade branca.
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Discrição: A expectativa é que as pessoas negras sejam discretas e evitem chamar atenção. A invisibilidade torna-se um mecanismo de sobrevivência.
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Isolamento social: O contato próximo entre acadêmicos negros é visto com desconfiança; até dois negros juntos são frequentemente rotulados como ‘gueto’, evidenciando os estigmas sociais associados à negritude.
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Comportamento assimilado: Existe uma pressão para que as pessoas negras adotem comportamentos típicos das pessoas brancas, negando suas próprias raízes e culturas.
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Modelos de branquitude: Relacionar-se com pessoas brancas é um indicativo de não ser uma ameaça, reforçando o estigma que marca a identidade negra.
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Silêncio sobre racismo: Existe um consenso tácito de que discutir racismo é inadequado e deve ser evitado.
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Demonstração de assimilação: As pessoas negras devem frequentemente demonstrar publicamente suas distâncias em relação a outras pessoas negras como forma de validação perante a sociedade.
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Afastamento da negritude: Por meio da exclusão de quaisquer referências à cultura negra, busca-se uma aceitação no espaço acadêmico.
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Subserviência: Aceitar a primazia das normas brancas implica em uma disposição para não desafiar a ordem estabelecida.
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Confiança e desconfiança: Apesar de toda a subserviência e adequação, a desconfiança em relação à confiabilidade de acadêmicos negros permanece.
- Trabalho excessivo: A carga de trabalho para pessoas negras muitas vezes excede a de seus colegas, com exigências adicionais de conformidade a normas sociais que os fazem parecer menos ‘ameaçadores’.
Em síntese, o que eu denomino "taxa de embranquecimento" representa o tratamento desigual frequentemente imposto a pessoas negras, que se veem na obrigação de demonstrar sua aceitação e conformidade. Essa dinâmica não só mina a autoestima, mas também dificulta a construção de um espaço acadêmico verdadeiramente inclusivo. É comum que qualquer desvio desse padrão seja visto não apenas como uma anormalidade, mas como um ato de resistência contra um sistema de poder profundamente arraigado.
