Um estudo recente realizado pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM) revela que o acesso ao transporte público em São Paulo, particularmente ônibus e metrô, está profundamente ligado às desigualdades de raça e classe. A pesquisa, que analisa a acessibilidade a oportunidades de emprego na cidade, encontrou dados alarmantes: indivíduos brancos possuem, em média, uma acessibilidade a empregos 105% maior em comparação aos negros, considerando um tempo de deslocamento de até 60 minutos utilizando apenas o transporte público.
Os resultados da análise apontam que a disparidade é ainda mais acentuada quando se observam critérios de renda. Os 10% mais ricos desfrutam de uma acessibilidade quase cinco vezes maior que os 40% mais pobres, que, alarmantemente, não conseguem acessar sequer 10% das oportunidades de trabalho disponíveis na cidade dentro desse mesmo limite de tempo.
A pesquisa de Freiberg, Giannotti e Bittencourt não apenas cataloga as falhas dos projetos de expansão do transporte público, mas também questiona a eficácia das estratégias adotadas nos últimos 25 anos. Embora algumas iniciativas tenham como objetivo mitigar desigualdades, muitas falham em incluir avaliações sérias sobre os efeitos distributivos de suas propostas, ignorando, assim, os princípios fundamentais de equidade em suas políticas.
A equipe de pesquisadores examinou uma série de projetos significativos na expansão da rede de transporte, incluindo seis linhas de metrô e dois corredores de BRT, demonstrando que, embora a intenção de melhorar o acesso esteja presente em diversos planos, a maioria não se preocupa em medir os impactos reais nas comunidades mais vulneráveis.
Utilizando dados da Pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo e do Censo de 2010, o estudo cobriu 342 zonas de transporte. Do total da população analisada, aproximadamente 40% reside em áreas periféricas, longe dos centros de oportunidades.
Neste contexto, o estudo alerta que a atual configuração da rede de transporte, que prioriza um modelo radial com foco no centro da cidade, exacerba as desigualdades. Os pesquisadores sinalizam que, enquanto algumas linhas em construção, como a L15, podem reduzir as disparidades, outras, como as linhas L20 e L16, têm o potencial de agravar a situação, conectando áreas de maior exploração a regiões onde a acessibilidade é uma questão crítica.
O estudo conclui que a verdadeira equidade no planejamento de transporte deve ir além do mero aumento de acessibilidade ao emprego. Recomenda-se que os planejadores considerem também o acesso a educação, saúde e lazer nas suas avaliações, incentivando a adoção de métricas que contemplem a diversidade de necessidades das populações.
Por fim, enfatiza-se que a equidade na mobilidade não deve ser vista como um objetivo secundário, mas como um elemento essencial em todas as etapas do planejamento urbano. A pesquisa destaca a importância de reformas nas métricas atuais para garantir uma melhoria significativa no acesso à cidade para todos os seus habitantes, independentemente de classe ou raça.
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