Relação com a família e memória: cuidados essenciais na terapia
A relação dos pacientes com a família, especialmente durante a infância, é um tema frequente nas consultas psicológicas. Essa abordagem visa acessar memórias e emoções importantes para a compreensão do indivíduo. No entanto, uma nova pesquisa demonstra que levantar questões sobre o passado pode influenciar a percepção dessas recordações.
A psicóloga Ana Lúcia Carvalho, da UFF, ressalta a importância do conhecimento das teorias da memória para orientar a prática clínica. É fundamental que o terapeuta não induza percepções nos pacientes, mas sim os estimule a expressar suas lembranças. Esta atenção aos detalhes, inclusive na formulação de perguntas, é essencial para um cuidado eficaz.
Um estudo recente, divulgado na revista científica Psychological Reports Journal, analisou a influência das perguntas na terapia. Ao longo de quatro semanas, 300 participantes foram acompanhados em sessões terapêuticas. Na primeira etapa, os pacientes foram divididos em grupos e solicitados a destacar aspectos positivos ou negativos sobre suas mães, com resultados que impactaram suas emoções nas consultas subsequentes.
O estudo também apontou a dificuldade em recordar eventos da infância de forma precisa, devido à constante formação de neurônios no cérebro nessa fase. Em sessões de acompanhamento, sentimentos como felicidade, interesse, tristeza e raiva em relação às mães foram analisados, revelando a relação entre as lembranças destacadas anteriormente e as emoções presentes.
Outra pesquisa, publicada no Journal of Applied Research in Memory and Cognition, abordou a influência da reavaliação cognitiva na memória emocional. Pacientes que conseguiram reduzir a carga emocional de experiências negativas demonstraram melhorias na recordação de eventos neutros, evidenciando a importância da regulação emocional na formação da memória.
O professor Martín Cammarota, da UFRN, alerta para o cuidado necessário ao abordar traumas e memórias falsas durante a terapia. Estratégias validadas pela neurociência, como o treinamento de memória de trabalho, podem auxiliar os pacientes na modulação de emoções negativas, proporcionando benefícios duradouros.
Em suma, a abordagem terapêutica deve ser cautelosa ao explorar memórias passadas, evitando influenciar a percepção dos pacientes e respeitando os limites da reavaliação cognitiva para garantir o bem-estar emocional e psicológico dos indivíduos.