Reconstruindo Brasília: Entre Escombros e Fragmentos de História
Na atual exposição “Brasília”, em cartaz nas galerias da FGV Arte, no Rio de Janeiro, os visitantes são confrontados com uma visão perturbadora da capital federal. O renomado artista Vik Muniz apresenta uma imagem icônica das torres do Congresso Nacional, porém, ao invés da habitual limpidez do modernismo de Oscar Niemeyer, a estrutura é composta por estilhaços de vidro, restos de carpete e cartuchos de balas. Esta reconstrução às avessas é um testemunho dos eventos de depredação que ocorreram durante os ataques aos palácios da cidade no ano passado.
Outro destaque da mostra é o trabalho de Siron Franco, que expõe um retalho do carpete do Supremo Tribunal Federal, com as pegadas avermelhadas dos invasores, simbolizando a violência e a destruição causadas durante os eventos golpistas. A exposição não apenas documenta os danos físicos, mas também busca representar a memória e o impacto emocional dessas ações.
Além das obras recentes, a exposição também conta com trabalhos de artistas que anteciparam, décadas atrás, os desafios e as contradições enfrentadas por Brasília. A arquitetura extravagante da cidade, em contraste com as periferias violentas, é um tema recorrente nas obras expostas. A instalação de Rosângela Rennó, que homenageia os trabalhadores que morreram na construção da capital, e a obra de Rafael Pagatini, que retrata os líderes da ditadura militar, são exemplos do forte impacto político e social presente na exposição.
O caráter simbólico e a reflexão crítica sobre a história e a identidade de Brasília são elementos essenciais encontrados em cada obra exposta. A cidade, concebida como um projeto visionário de desenvolvimento, se revela, através dessas representações artísticas, como um espaço marcado por contradições, lutas e memórias dolorosas.
Assim, a exposição “Brasília” não apenas celebra a beleza arquitetônica da capital brasileira, mas também desafia os espectadores a refletir sobre o seu passado conturbado e o seu futuro incerto. As obras expostas convidam a uma profunda introspecção sobre o significado de construir, destruir e reconstruir uma cidade que carrega em si tantas camadas de história e de dor.