Incêndio em Santos: Sobreviventes contam suas histórias de tragédia e dor
No dia do incêndio, Sandra estava em casa com a mãe, Ermelinda, e os irmãos. “Quando começou o incêndio, ele [o irmão] chamou nossa mãe, me chamou, acordei minha irmã Marcia e minha mãe saiu de porta em porta chamando os vizinhos”, relembra. “Depois que ela conseguiu chamar um monte de gente, ela travou e falou ‘Corre, filha, corre. Agora deixa a mãe morrer, porque a mãe está velha, a mãe não aguenta correr'”. Foi graças a um irmão, que chegou com uma lambreta, que elas conseguiram escapar em segurança para a Vila Nova.
O descaso com a manutenção dos encanamentos era evidente. “A gente percebia que tinha algo errado com aqueles encanamentos da Petrobras ali e nada era feito”, relata Sandra. “O cheiro de gasolina, petróleo, sei lá, era muito forte. Depois que o fogo se alastrou, foi uma catástrofe, não houve tempo para nada.”
Lembro de amigas minhas, como a Simone, que vi passar por mim em chamas. Ela até hoje tem as marcas nas costas. Foi horrível ver ela passar gritando, se debatendo, com as costas pegando fogo. Quando as aulas voltaram na escola municipal João Ramalho, meu Deus, minha sala estava praticamente vazia. Lembro do Agnaldo, da Quitéria. Quitéria era uma amiga que sentava junto comigo na classe, ela morreu, toda a família dela morreu. Sandra Regina Luz de Souza
A fotógrafa também se lembra da chegada de pilhas de caixões e das pessoas colocando restos mortais de pessoas carbonizadas dentro deles. Famílias inteiras eram colocadas num único caixão. “As casas destruídas foram reconstruídas depois, mas a dor das perdas humanas ninguém apaga”, afirma.
Para Sandra, a responsabilidade da Petrobras é clara. “Para mim, a Petrobras foi responsável, sim. Porque escavaram a área, instalaram aqueles encanamentos, e o cheiro era muito forte de gasolina ou petróleo. A gente avisou, mas nada foi feito.”
Essa tragédia nos afetou emocionalmente, psicologicamente. Minha mãe sofreu muito, foi muita perda, muitos amigos, muitos conhecidos. Meu irmão perdeu a namorada e a sobrinha dela, elas foram encontradas mortas, abraçadas. É muito triste. Sandra Regina Luz de Souza
Estes relatos comoventes trazem à tona a triste realidade enfrentada pelos sobreviventes do incêndio em Santos. A negligência na manutenção dos encanamentos da Petrobras, o desespero das famílias durante a tragédia e a dor das perdas humanas são aspectos marcantes que ainda assombram aqueles que vivenciaram aquele fatídico dia.
A história de Sandra e de tantos outros sobreviventes serve de alerta para a importância da responsabilidade das empresas e das autoridades na prevenção de acidentes como este. A memória das vítimas deve ser preservada e a justiça deve ser feita para que tragédias como essa não se repitam.