Aurora: O Caminho das Histórias de Adoniran Barbosa, Mario de Andrade e Crime Homicida






Artigo Sobre a Rua Aurora

A Rua Aurora e Suas Histórias

A rua Aurora, caminho vertebral da velha Boca do Lixo, em São Paulo, é cheia de surpresas. Foi ali, por exemplo, no número 54, que nasceu o escritor Mário de Andrade, em 1893, num prédio que não existe mais e foi substituído por lojas de equipamentos eletrônicos. Poucos metros adiante, no número 72, o homicida Francisco da Costa Rocha, o Chico Picadinho, cometeu seu primeiro crime, o assassinato da bailarina austríaca Margareth Suida, em 1966. Não bastassem esses fatos notáveis ou escabrosos, a Aurora foi também o lugar da residência do cantor e compositor Adoniran Barbosa, nome artístico de João Rubinato.

O mais interessante é que o primeiro grande sucesso de Adoniran como compositor, a música “Saudosa Maloca”, foi concebida no apartamento do Santa Ignez, enquanto ele observava a mudança da paisagem ao redor e conversava com moradores de rua.

Em vídeo de divulgação de um filme sobre Adoniran chamado justamente de “Saudosa Maloca”, que será lançado no próximo dia 22 de fevereiro, dirigido por Pedro Serrano, o produtor e apresentador musical Paulo Arruda conta que Adoniran fez amizade com um sem-teto chamado Mario, de apelido Mato Grosso, que lhe revelou que a perda da “maloca querida” estava próxima. Um edifício alto iria substituir o “palacete abandonado”. Uma noite, num passeio com Peteleco pela Aurora, Mato Grosso contou para Adoniran que os moradores que se protegiam ali seriam desalojados. Triste com o drama do amigo da rua e de outras pessoas que moravam no terreno, Adoniran chegou em casa e compôs o samba inteiro em uma só penada, tocado pela emoção.

“Saudosa Maloca”, composta em 1951, foi o primeiro grande sucesso do compositor que fazia economia para ter sua residência própria e sair do apartamento no centro. A placa da prefeitura colocada no Edifício Santa Ignez indica que Adoniran viveu no local entre 1949 e 1962. “Saudosa Maloca” retrata precocemente um drama atual: o problema dos sem-teto e dos moradores de rua que perambulam pela cidade —inclusive pela rua Aurora. A música mostra que a situação de carestia e falta de residência já estava colocada na década de 1950, assim como a voracidade imobiliária que levava as construtoras a erguerem seus arranha-céus em cima dos prédios históricos que compunham a velha cidade. O que não se pode negar é que a rua Aurora é cheia de magia, um lugar abençoado do centro da cidade, que provoca ao mesmo tempo medo, pelos problemas de segurança, e encantamento.

Viver ali pode ser aparentemente um grande risco, mas é também um privilégio por conta do burburinho urbano e da diversidade humana. É um lugar onde dá para sentir a cidade pulsar, onde os dias são agitados pelo comércio vigoroso e a noite pelos personagens que saem das sombras. É uma rua que provoca paixões, onde um maluco como Picadinho pode ter um surto. Onde o grande Mário de Andrade nasceu e onde Adoniran compôs suas famosas melodias. Nada como a rua Aurora para contar histórias, sejam elas trágicas, nostálgicas ou encantadoras.

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